A Simplicidade e a Música como profissão

21.1.13

Sou profissional da música e exerço funções relacionadas com o ensino e a performance. O estilo minimalista trouxe realização e felicidade na minha vida profissional? Claro que sim, e de várias formas! Joshua Becker defende que cada um de nós deve procurar um minimalismo racional que funcione para si mesmo. Foi o que eu fiz!


Vertente do estudo pessoal


Ser músico envolve muitas horas de estudo. Mas não é apenas uma escola de 8 anos e pronto. Existe uma continuidade e parece que nunca se sabe tudo. Todos os dias posso aprender um novo acorde, ritmo, tema, etc. Posso até compor, tocar de modo diferente a mesma música ou mais rápido, improvisar vezes sem fim,... é um processo muito curioso e com constantes surpresas! Mas confesso que depois de um dia de aulas, chegar a casa com tarefas domesticas por fazer e tentar dedicar-me ao piano... era mais “tocar” do que “estudar”.
Deste modo mudei rotinas. A prática de levantar cedo e tornar um hábito o estudo bem cedo (de fones) ainda antes de dar aulas, tem desenvolvido muito a minha técnica ao piano. Consigo estar mais focada sobretudo entre as 6h15 e as 7h40.

Depois há uma série de pormenores onde aparece a simplicidade musical: 
- tocar apenas o essencial e não "solar" ao mesmo tempo que outros instrumentos
- interpretar mais e tocar menos
- focar na música propriamente dita e deixar preocupações ou outros assuntos de lado (sobretudo quando o som de palco está horrível!)
- ter apenas o material essencial em palco e tirar o máximo partido dele, ao invés de ter imensos teclados ou baterias cheias de pratos que nem se usam

É ainda significante poder dar tanto valor a algo que não é material e que mexe com o coração. Algo que estimula e produz sentimentos, emoções e sensações. É recordar o Stevie Wonder cego e vivendo tão intensamente a música nas suas composições e nos seus shows. Ou relembrar um Beethoven surdo que continuava compondo com paixão.


Vertente da performance


Só o facto de estar a trabalhar no que gosto é inspirador. Foi para isso que estudei toda a vida e consegui. Enquanto hobby ou trabalho eu estou cada vez mais focada na minha paixão e concilio o tempo de descanso produtivamente com o lado profissional propriamente dito. Por vezes, confesso, é desgastante. Mas estou focada no essencial.

Dêem-me um piano e sou feliz! Obviamente às vezes repenso umas colunas melhores, ou a compra de um microfone para determinada gravação... mas sem consumismos, tudo isto são acções raras e que servem para um trabalho mais profissional. 
Também invisto na qualidade ao invés da quantidade. Não tenho 500 coisas no meu estúdio, apenas material bom e suficiente para o que eu faço atualmente. Passei muitos meses sem comprar nada para mim (inclusive roupas, sapatos...) ou para a casa (ainda tenho a sala por mobilar) pois estava investindo apenas nas condições do meu estúdio musical. Resultou!
Na performance musical cada vez mais invisto nos estilos musicais que quero aprimorar. Deixei projectos com os quais não me identificava apesar do sucesso e forte promoção dos mesmos e recusei em 2012 propostas de grupos com repertórios que eu desejava evitar. Neste momento tenho apenas os projectos que me dão prazer e, ao mesmo tempo, conseguem ter saída e trabalho no mercado musical (mais uma dádiva pela qual lutei!). 


Vertente do ensino


Com todas as mudanças no sistema de educação do ensino especializado da música, tanto público como privado, são cada vez mais as burocracias a tratar. Passo mais tempo preenchendo grelhas e avaliando por obrigação do que propriamente a atualizar as minhas aulas e preparando novas canções mais atuais, conteúdos, materiais didáticos, partituras, etc.

Curiosamente, ainda assim, sinto um processo de simplificação muito grande com o meu antes. Estou muito mais prática, menos apegada a livros, sei exatamente o que tenho a fazer e porque faço assim. Neste momento estou usando apenas grelhas no excel (com o modelo de avaliações já pronto) gravadas na minha drop, bem como alguns pdfs com materiais didáticos. Preencho as avaliações/faltas de material e outras observações diretamente nesses ficheiros (um para cada turma) durante a aula e quanto às partituras envio por email o pdf para as escolas (nas quais serão impressas e entregues às turmas).
O sistema de dropbox permite-me ter sempre os documentos a partir de qualquer computador, mesmo que um dia esqueça o meu computador em casa ou este avarie. 
Quanto ao meu método de ensinar, cada vez mais sinto que sou uma inspiração para os meus alunos, que busco ambientes de imersão musical e que todo o modo simples de pensar e de ensinar é o mais compensativo. Predominantemente uso um método mais auditivo com menos material. Os exercícios orais, com memorizações, audições interior ou transposições são mais frequentes, porém sem descuidar da leitura.

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Algumas coisas que escrevi aqui, agora que reli, parecem por vezes pintadas de rosa. Mas agora a luta é manter o que consegui e continuar a lutar para que os tempos difíceis não me obriguem a largar tantas coisas simples que são exatamente as que me fazem sentir realizada...

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