Eu e os meus espaços - por Giovani Goulart

25.6.15

(este artigo foi escrito por Giovani Goulart)


Confesso que sempre fui tendenciosamente consumista. E sempre que tive uma fase boa financeiramente acabava por comprar muita coisa útil mas também muita coisa desnecessária. Acabei por lotar quase todos os meus espaços com coisas que eu, sem saber porquê, me apegava mesmo tendo a consciência de que não eram fundamentais nem prioritários para o meu dia a dia, para o meu lado pessoal ou para a minha profissão.

O simples facto de algo estar em oferta já despertava em mim o start compulsivo do querer comprar e levar para casa.  Só percebi isso bastante tarde, quando oficialmente aprendi a viver. Obviamente que ninguém é igual e cada um tem o seu tempo para auto conhecer-se e avaliar acertos e erros.

Eu gosto de casa cheia de amigos, comunicação, falar bastante, ter onde pôr objetos, ter tudo o que supostamente eu preciso dentro da minha casa. Mas recentemente, por motivo de trocar de país, fiquei extremamente surpreendido comigo mesmo quando percebi que oficialmente não preciso de nada que pensava que precisava mas sim de aprender a avaliar o que eu preciso ou não.
Acreditem, eu não preciso de 2 terços daquilo que eu julgava ser fundamental ou extremamente interessante. Na hora de habitar uma nova casa num outro país, deparei-me com uma casa vazia e com a responsabilidade de tomar todas as decisões sobre o que iria compor cada compartimento dessa nova casa que, para minha sorte, ainda é bem pequena.

Por falar em pequena, descobri que este espaço, que eu julgo pequeno, ainda é extremamente grande e oferece todas as condições para viver-se completamente satisfeito, e comparativamente aos meus extensos anos de vida a viver em antropia mobiliária, este pequeno espaço acabou por ensinar-me a pensar sobre o que verdadeiramente eu preciso, sobre o que me faz feliz, sobre o que eu necessito, o que é prioridade para mim ou o que é hábito ter mesmo quando não necessário.

Assim sendo, passo a citar o exemplo da minha sala, que antes continha chaise long, estantes de livros, mesa com seis cadeiras, tapetes, mesa de centro, focos, abajures, aparadores, e móveis de suporte. Lembrem-se que isso somente na sala, sem contar com puffs e dezenas de objetos encostados aos cantos da maioria dos móveis.

Agora, nessa nova casa, tenho um sofá de três lugares, um armário pequeno para guardar os meus instrumentos musicais de percussão e um piano vertical. Confesso que, por necessidades visuais, ainda adquiri um abajur vertical, muito simples mas que dá a claridade suficiente para as minhas noites de apreciação do elegante soalho em madeira flutuante e das cortinas longas que me separam do mundo exterior. E reparem que eu justifico isto com o facto de não haver nenhuma luz no tecto da sala nem em suas paredes. Posso contar com uma das mãos os móveis que tenho. Sobram dedos acreditem!


Ainda para exemplificar, esta semana tive a tentação de comprar uma mesinha de centro lindíssima, bem do estilo que eu estou habituado a ter, meu coração apontou, disparou e disse "sim". Mas não contava com a minha capacidade de pôr a maturidade antes ao impulso. E assim sendo, mesmo consciente de que queria adquirir essa mesinha, até porque o preço estava em promoção, acabei por vencer a tentação e o impulso de comprar, substituindo este gesto por uma análise sincera e frontal de necessitar ou não da referida mesa.

Conclusão: eu sei que quero essa mesa, mas não preciso dela. E nesta frase tem dois momentos: o primeiro onde eu fico muito feliz por descobrir uma mesinha exatamente como eu queria ter; e o segundo pela realização de ter a consciência de que já não convivo mais com o impulso do comprar nem com a ilusão das coisas em promoção, mas sim com o poder abrir os braços na sala ou deitar no chão ao comprido e saber que eu tenho espaço para tudo, casa limpa, lugar elegante e apresentável, e a consciência de que tudo o que lá não tenho sei que não me faz falta.

Aprendi conscientemente que saber escolher o mínimo suficiente é preencher tudo o que se precisa, sem copiar ideia de ninguém e sem ter que ter uma casa igual a um estereotipo consumista mundialmente instituído. E confesso que me sinto muito mais feliz com o dinheiro no banco sem gastar e com a casa tendo tudo o que eu preciso, do que dando atenção a um simples acto de comprar algo, simplesmente porque este está em promoção.

Minha vida consciente é muito mais minimalista do que os meus vícios consumistas que embora parecessem atender ao necessário, nada mais faziam do que ocupar espaço e gastar meu dinheiro todo. Estou muito mais feliz assim!

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1 comments

  1. Ao ler este artigo estava a pensar que poderia ser mesmo escrito por ti :) Obrigada pela partilha! Beijinho enorme e espero que esteja tudo a correr bem :)

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