Dois Caminhos Sobre Você Mesmo

1.12.15


Texto de Giovani Goulart

Uma das coisas mais comuns de se constatar atualmente é a distância existente entre aquilo que somos como cidadãos e aquilo que somos enquanto pessoas... mais detalhadamente refiro-me ao nosso âmago e a tudo que nos personifica. Quando cito personificar, tenho a intenção de resgatar todas as nossas expressões, sentimentos, entendimento e relação com o mundo que nos cerca pois, nem tudo que fazemos ou vivemos permite-nos ser nós mesmos...

Hoje em dia a generosa dose de aceitação que temos que ter sobre opiniões diferentes, considerações infundadas, publicações sem conteúdo, diálogos profissionais desalinhados, momento de refutação e enquadramento social (supostamente ético) acaba por nos afastar “de nós mesmos e dos nossos mais fiéis referenciais”.

Essa falsa imposição de que temos de cumprir padrões, andar na moda, ter excessivo cuidado com as verdades que se diz, e a necrófila concordância passiva sobre manifestações equivocadas ou inexatas de conhecimento geral somente planta em nós sementes rotineiras de permissividade que, culminam por alterar de modo muito subtil mas profundamente, tudo o que verdadeiramente somos.

Vejamos alguns simples exemplos ocorridos em rotinas diárias que, acontecem no mundo inteiro e, mais recentemente neste espaço democraticamente livre que é a internet... Alguém posta uma foto e diz que jantou um bife maravilhoso... logo a seguir surgem os “likes”... então eu devo concluir que, quem fez “gosto” nesta postagem, que não diz nem traz nada pra ninguém, verdadeiramente gosta de saber que uma pessoa conhecida ou simplesmente anônima jantou um bife...

Sendo elegante, eu toleraria para evitar discussões mas, se for perguntar a minha mais recôndita verdade sobre este assunto, então acho completamente desnecessário, sem proveito rigorosamente algum para quem quer que leia este post e mais, consigo deduzir que o autor desta publicação tem imensos problemas de solidão. Aqui vemos o meu “eu” enquanto cidadão de mente contemporânea e o sincero rapaz que habita em mim e que, de forma muito honesta, sente tudo que vive. Mas tudo isso adquire novas proporções quando afirmações, postagens ou entrevistas são feitas a pessoas públicas ou com alguma notoriedade... imaginem o que seria comentar contra uma publicação de um prefeito, de um ministro, de um deputado, de um ator, atriz, de um cantor famoso....!!! Todos iriam me apedrejar e dizer que se o autor é famoso, ele tem mais razão do que eu que sou anônimo.

Exemplo 2: Alguém diz que adora determinado estilo de música e eu, que estudei música durante mais de 30 anos, sei que isso a que chamam música nem sequer mereceria estar citada como tal MAS, não o posso admitir para não ser excluído do círculo social que tem essa mentalidade formatada para quase tudo... o que fazer? Ser eu mesmo e dizer a verdade, mesmo sabendo que todas as portas se fecham após a sua manifestação? O que você faria?

Estas questões banais e cotidianas que citei são somente a ponta de um iceberg que denigre a cultura mundial, que mascara a realidade social e que, infelizmente, a maioria já aceita.

Assim sendo, entrevistei algumas dezenas de colegas, coloquei-lhes as questões. Mas as respostas pouco ou nada divergem, todos estão habituados ser “o que é preciso ser” em detrimento de serem “eles mesmos, legítimos e contraditórios”.

Então convivemos com essa dualidade entre o que sou e o que preciso ser para me enquadrar nessa sociedade que pensa ser culta.

Obviamente que não sou fundamentalista, não sou partidário nem tão pouco defendo que a minha verdade deveria ser a verdade de todos mas, defendo que hoje em dia, é muito mais fácil conviver quando nos enquadramos ao que é suposto que sejamos do que quando somos sinceros, honestos e frontais... Eu pasmo quando alguém não admite estar errado mesmo quando todos os indícios apontam para isso! E lá vamos nós mais uma vez, ouvir, saber que não está correta a afirmação de um chefe ou superior e, omitir o meu parecer para “ganhar o quinhão do bom perdão” e continuar a conviver com pessoas que sentem-se atacadas quando contrariamos quaisquer de suas ideias. Pra mim “basta!” eu não vou procurar quem tem ou não opinião diferente mas também não vou aceitar que alguém que ostenta uma posição profissional e que pensa ser culto, me diga algo sobre o meu trabalho, sobre as minhas convicções e experiências ... porque eu não posso ser eu mesmo o tempo todo?

Porque teria que concordar ou gostar daquilo que não concordo e não gosto?

Mais uma vez fica exposto aquilo que somos para grande maioria das pessoas mas, fica omitido aquilo que sou, que me faz feliz, que me identifica e que, poucos oportunidades tem de ser partilhado pois, todos sentem-se demasiados conhecedores para contrariarem seja o que for... dos últimos 20 anos pra cá, só posso constatar que ao invés de progredirmos, caímos um um processo profundamente retrógrado e sem precedentes...  Quem você conhece que exerce a verdade 24 horas por dia sem ser rejeitado para grande maioria?

Essa dualidade mora nos casamentos, sociedades, coleguismos, trabalhos em grupo e até mesmo em religiões. Parece que ser naturalmente verdadeiro ou, manifestar o seu eu, passou a ser sinónimo de conflitos.

Eu entendo casos isolados onde as pessoas não conseguem mesmo serem autênticas mas, é isso que queremos pra nós? É este o caminho que me leva a me sentir “mais eu”, mais realizado, mais verdadeiro, mais sincero e mais frontal?

Para concluir, eu afirmo a todos vocês que eu já encontrei o meu caminho e me conheço bem e isto me permite ser eu mesmo o tempo todo.


Dicas para saberes se estás sendo tu autenticamente ou se estás sendo o que é preciso ser:

1. Questione-se sempre sobre tudo com legitimidade

2. Mesmo que tenha que agir de modo diferente, entenda que, você mesmo permite que isso aconteça mas, não se distancie das suas raízes

3. Olhe-se no espelho e pergunte o que você esta fazendo para se manter legítimo? Responda com sinceridade e, se for preciso, retome a direção do caminho que lhe leva a você mesmo

4. Não se identifique com opiniões e sim com fatos concretos vividos por você

5. Veja até que ponto você perdeu a capacidade de sorrir, brincar, pular, dançar e fazer coisas absolutamente normais. Quantas vezes por semana você faz isso?

6. Antes de falar, escrever ou postar qualquer coisa, pergunte a você se você realmente sabe muito sobre o assunto que está falando


Claro que nós não nos “perdemos” assim tão facilmente mas, nos desviamos por completo de tudo que temos de mais bonito em nossas vidas que é “ser nós mesmos”!

Bem haja a todos

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