Minimalismo na Austrália – grande entrevista de Janeiro

29.1.16

com Jessica Alcorso, autora do blog Living with Intention


Fonte: www.jessicaalcorso.com

Tenho o orgulho de apresentar uma experiente e bem sucedida minimalista que nesta entrevista desvenda alguns dos seus hábitos, costumes, truques e dicas.

Já há algum tempo para cá tenho vindo a procurar mais histórias e modelos de vida simples e de minimalismo. Os “grandes” que têm livros, milhares de visualizações, blogs super conhecidos e que todos lemos, não são os únicos. Alguns deles têm, afinal, uma vida muito diferente da nossa pois podem dedicar-se inteiramente à escrita. Mas pessoas como a Jessica se aproximam da nossa realidade e não deixam de ser, para mim, bons modelos em suas vidas ocupadas!

Afinal quem é Jessica? Ela é canadense mas vive na Austrália. É professora na universidade e está fazendo doutoramento em Psicologia da Saúde. É minimalista e partilha seus pensamentos e sugestões em seu blog Living with Intention.

Como será o minimalismo para esta professora universitária?
A todos os que desejam uma vida mais simples e minimalista, recomendo vivamente a leitura desta entrevista para que possam conhecer alguém assim: tão “grande” e com tantas ideias e experiências inspiradoras!

Fonte: www.facebook.com/jessicaalcorso


1. Quem é a Jessica e como se define?

JESSICA ALCORSO: Olá! Muito obrigado pelo seu interesse no meu estilo de vida e pelo seu tempo em entrevistar-me. É difícil definir-me numa função ou interesse, pois eu tendo a ter muitas paixões e ocupações diferentes ao mesmo tempo. Esta é aquela área onde eu não sou minimalista!

Atualmente, estou realizando pesquisas, terminando meu doutoramento e ensinando psicologia na Universidade Macquarie, em Sydney, Austrália. Sou também Professora de Yoga e Terapeuta Nutritiva, e comecei agora a treinar para ser uma Especialista de Exercício Restaurador / Personal Trainer (www.nutritiousmovement.com). Sou também mãe de dois meninos: um gato e um cão. :) Finalmente, sou esposa de um militar - o meu marido está no exército e isso definitivamente tem impacto na minha vida em muitos modos.


2. Quando você começou o minimalismo e a alimentação saudável?

J. A.: Eu sempre fui apaixonada por saúde e bem-estar, e todos os meus interesses e estudos originaram-se nesta paixão. Desde adolescente que venho estudando nutrição para saber mais sobre alimentação saudável, e eu já experimentei muitas abordagens diferentes de nutrição ao longo dos anos, com o objetivo de encontrar o que funciona melhor para o meu corpo.

Curiosamente, eu era um pouco colecionadora de tralha em criança. Conforme fui crescendo, o meu quarto estava sempre cheio de coisas e eu odiava arrumar e limpar (ainda odeio!). Porém, quando entrei na universidade deu-se um click! Eu sentia-me sobrecarregada e estressada, e descobri que, ao simplificar o espaço onde vivia, conseguia sentir-me muito mais calma. Inicialmente, eu apliquei o conceito de minimalismo apenas nas minhas posses físicas - destralhando, tendo menos e comprando menos coisas. Depois que me casei, comecei a simplificar e a minimizar as minhas posses ainda mais. Devido às exigências do serviço militar, eu e o meu marido mudamo-nos a cada um ou dois anos durante os últimos sete. Rapidamente aprendemos que quanto menos tivéssemos, menos teríamos de mudar, e mais agradável seria a experiência!

Somente nos últimos 12 meses eu percebi que o conceito de minimalismo (com foco no que é essencial e deixando de lado o resto) poderia ser aplicado em todos os aspectos da minha vida: nutrição, fitness, estilo de vida, trabalho, relacionamentos... Aqui foi quando tudo se juntou para mim e eu comecei a viver verdadeiramente minimal e a viver melhor.


3. E o que fez você estudar psicologia da saúde?

J. A.: Eu realizei o meu curso superior em psicologia porque eu era fascinada pelo comportamento humano. Depois de concluir a minha licenciatura, comecei a trabalhar na promoção da saúde e na prevenção do cancro com uma organização sem fins lucrativos de combate ao cancro. Durante o meu tempo de trabalho nesta área eu notei que havia uma desconexão entre o conselho de saúde que as pessoas recebiam e o comportamento real delas. Numa sala cheia de pessoas poderiam ser dadas as mesmas informações sobre como reduzir o risco de desenvolver cancro, mas cada indivíduo iria provavelmente diferenciar-se em termos de como interpretaria essa informação e se a aproveitaria ou não para mudar o seu estilo de vida. Eu me senti impotente ao falar ao público sobre a saúde – eu sabia que por mais que eu falasse infinitamente, a informação que eu estava propondo não necessariamente influenciaria as pessoas a fazer mudanças em suas vidas.

A partir desta experiência, decidi começar a estudar por que as pessoas seguem ou não o conselho de saúde dado para elas, e isto levou-me a começar o meu Doutoramento em Psicologia da Saúde. A minha investigação de doutoramento tem-se centrado na identificação de fatores psicológicos e sociais que influenciam o comportamento da saúde.


4. O que a motivou a criar "Living with Intention” (Viver com intenção)?

J. A.: Comecei um blog, porque eu queria um espaço para reunir os meus pensamentos e aspirações através dos vários tópicos que eu estava perseguindo. A minha escrita abrange vários temas, incluindo minimalismo, nutrição, fitness e psicologia. O título reflete o tema geral da minha vida agora, o qual é viver cada dia conscientemente e com um propósito, e examinar tudo o que eu faço e consumo.


5. Você tem influências ou pessoas que inspiram você?

J. A.: Há tantas pessoas que me influenciam e inspiram... É difícil citá-las a todas! Vou compartilhar algumas das pessoas que eu sigo e que têm uma presença on-line:

Leo Babauta (www.zenhabits.com), Joshua Becker (www.becomingminimalist.com) e The Minimalists (www.theminimalists.com), inspiraram-me a abraçar o minimalismo.

A minha professora de yoga, Dra. Melissa West (www.melissawest.com), que me inspira continuamente a crescer enquanto pessoa e que trata todos com bondade e compaixão.

Katy Bowman (www.nutritiousmovement.com), é uma biomecânica que me influenciou a reconhecer como meus hábitos de vida diária (sentar por longos períodos, por exemplo) estavam impactando negativamente a minha saúde.

Bea Johnson (www.zerowastehome.com) definitivamente inspirou-me a reduzir a quantidade de lixo que produzo e a explorar um estilo de vida “zero waste” (sem desperdício).




6. Conte-nos a sua experiência reduzindo mobília em casa.

J. A.: Depois de nos mudarmos tantas vezes, eu e o meu marido tínhamos minimizado nossas posses consideravelmente, incluindo mobiliário. No entanto, nós ainda possuíamos o básico: um sofá, uma mesa e cadeiras, uma cama, uma secretária, etc. Depois de ler, "Move Your DNA", um livro de Katy Bowman, eu apercebi-me de como o nosso mobiliário estava impactando negativamente a nossa saúde. Ao sentar durante todo o dia no carro, nos sofás e nas cadeiras, estávamos forçando os nossos corpos a adaptarem-se a essa posição corporal singular. O nossos corpos se adaptam aumentando a tensão em alguns músculos (isquiotibiais e quadris), e fazendo com que outros músculos atrofiem (glúteos). Na cultura ocidental especialmente, nós já não temos de usar assim tanto os nossos corpos em nossas vidas do dia-a-dia, e nosso corpo responde diminuindo a densidade óssea e enfraquecendo.

Como o meu marido e eu já éramos minimalistas, o conceito de viver sem mobília foi atraente para nós - mais coisas que não precisávamos e que poderíamos desfazermo-nos! Por isso, doamos todos os nossos móveis, excepto uma mesa de café. Para trabalhar, eu fico de pé na bancada na minha cozinha ou sento-me no chão na mesa de café. Nós sentamo-nos no chão com almofadas durante as refeições. O facto de não termos um sofá, cadeiras ou cama permite que nós frequentemente nos agachemos e levantemos durante o dia. Isso tem fortalecido a parte inferior do nosso corpo. Sentar no chão melhorou os nossos quadris e aumentou a nossa mobilidade. Nós também temos mais espaço em nossa casa agora para nos esticarmos e fazermos exercício e, por isso, tornarmo-nos mais flexíveis e movíveis. Como minimalistas, nós valorizamos muito o espaço e a tranquilidade que ser livre de mobiliário criou em nossa casa. É também muito, mas muito mais fácil limpar a casa! :)


7. Depois que começou a usar o cook-up semanal (método de cozinhar uma vez para toda a semana), sentiu a necessidade de fazer qualquer alteração ao seu método inicial?

J. A.: Meu método cook-up semanal tem evoluído definitivamente ao longo do tempo. No início, eu preparava os componentes das minhas refeições separadamente ao domingo. Isto significava fazer uma salada, cozinhar a proteína (carne, ovos, peixe) e fazer alguns acompanhamentos (por exemplo, arroz). Isso tornou os almoços e os jantares mais fáceis ao longo da semana, mas eu ainda ansiava por uma maneira mais simples de preparar as minhas refeições. Deparei-me com a ideia de cozinhar uma vez e fazer receitas em grandes quantidades havendo assim sobras para comer durante a semana (ou mês) e isso realmente me atraiu. Fiquei presa ao meu método atual de cozinhar algumas refeições diferentes em grande quantidade ao domingo e congelar as sobras faz já alguns anos.

Acho que todos deveriam experimentar diferentes métodos para simplificar a alimentação saudável. Para alguns, um cook-up semanal vai funcionar muito bem. Para outros, pode ser mais fácil ter os ingredientes prontos no frigorífico para cozinhar antes de cada refeição. Experimentar é divertido, e com o tempo eu acho que todos nós podemos encontrar uma maneira de tornar a alimentação saudável simples e agradável! As preferências e os estilos de vida de cada um são diferentes, logo nenhum método vai funcionar igual para todos.


8. Qual é a sua refeição saudável favorita?

J. A.: A minha refeição saudável favorita é uma grande salada que tem no topo carne de porco desfiada, chucrute (sauerkraut) e abacate. A minha receita de carne de porco é muito simples - eu esfrego o ombro de porco (com osso) com alho, colorau, cominho e sal. Coloco-o no meu slow cooker (panela de cozedura lenta) em cima das cebolas e cubro com chili picado. Dez a doze horas mais tarde está pronto e corta-se facilmente com um garfo. As refeições com o slow cooker são as minhas favoritas, pois são tão simples e fáceis.


9. Dentro de suas atividades físicas em casa, encontrou alguma que você gosta muito?

J. A.: Eu sou completamente apaixonada por Yoga! Acho que é um sistema maravilhoso para trazer equilíbrio, força e flexibilidade, tanto para a minha mente como para o meu corpo. Também tenho me divertido aprendendo a fazer chin-ups (barra com mão para dentro) e handstands (pino) e a explorar movimentos de ginástica artística. Eu não sou naturalmente atlética, mas acho divertido explorar o movimento em casa num local seguro.


10. De acordo com a sua experiência e maturidade no assunto, qual é a sua definição de minimalismo?

J. A.: Para mim, o minimalismo é uma estrutura essencial através da qual você vive a sua vida. Trata-se de avaliar o conteúdo de sua vida (posses, compromissos, atividades, trabalho) para identificar o que você realmente precisa e valoriza. Através deste processo, você pode libertar-se tudo o que é desnecessário e o detém, ficando assim com uma vida cheia de alegria. Você tem menos, mas você começa a viver mais.


11. Você tem família ou amigos que discordam de suas opções minimalistas?

J. A.: Sim, tenho. Como seres humanos, nós usamos a comparação social como uma forma de avaliar onde estamos na vida: Será que estamos fazendo um bom trabalho? Somos bons ou maus? Poderíamos fazer melhor? Devido a isso, cada vez que nos deparamos com um estilo de vida diferente, não podemos ajudar, mas comparamo-lo com o nosso. Nós também temos uma tendência a querer que as coisas permaneçam as mesmas, que sejam estáveis. Nós não gostamos de mudanças. Então, quando você encontra alguém com um estilo de vida diferente do seu, é quase impossível não compará-lo e julgá-lo! É também difícil não se sentir ameaçado. Por esta razão, eu e meu marido costumamos não falar muito sobre o minimalismo fora do blog e das mídias sociais. Nós não queremos que os outros sintam que os estamos julgando, ou que achamos que a nossa maneira de viver é que é a melhor. É apenas o modo de viver que escolhemos, e nós não esperamos que os outros vivam desta maneira.

Dito isto, se você vier a nossa casa é impossível não perceber que somos minimalistas e, assim sendo, os nossos amigos e familiares certamente questionaram-nos sobre nossas escolhas. Doar nosso mobiliário foi, talvez, a mais extrema e muitas pessoas discordam da nossa escolha. :) Tentamos enfatizar que este é simplesmente o modo de vida que nos convém melhor, e que nós nunca iríamos julgar os outros pela maneira como vivem. Se alguém estiver interessado na simplicidade e no minimalismo, podem definitivamente falar connosco, mas nós tentamos não forçar o assunto com os outros, seja de que forma for. 




12. Que conselho você daria a alguém que quer começar uma vida saudável e minimalista?

J. A.: O meu conselho para quem está interessado em viver uma vida saudável e minimalista é encarar isso com calma e de modo fácil, de modo a não sentir-se saturado nem obcecado. Você não precisa de revisar todo o seu estilo de vida durante a noite. Pequenas mudanças, uma de cada vez, serão manejáveis, e você desenvolverá novos hábitos que sustém um estilo de vida mais saudável.

Uma maneira fácil de começar é avaliando o que você consome e traz para sua casa - tanto itens físicos (roupas novas, gadgets) como comida (mercearias). Antes de cada compra, interrogue-se se é algo que você precisa ou apoia a sua saúde. Se é algo que você não precisa ou se vai prejudicar o seu corpo, então talvez você possa experimentar viver sem isso. Eu gosto da ideia de você realizar pequenas experiências em sua vida para perceber o que não precisa para viver e que hábitos saudáveis gostaria de adotar. Mesmo que você mude apenas um hábito pouco saudável ou crie um novo hábito saudável neste ano, você ainda vai ser uma pessoa saudável quando 2017 chegar. :) Se você tirar/doar apenas uma coisa por dia, você será 365 coisas mais leve no próximo ano!


13. Quais são seus objetivos para 2016?

J. A.: Os meus objetivos para 2016 incluem terminar o meu doutoramento, mudar-me de volta para o Canadá, e aprender a minimizar o meu lixo e a avançar para um estilo de vida “zero waste” (sem desperdício). Adoro explorar como podemos aplicar o minimalismo em muitos aspectos diferentes da nossa vida - não apenas às nossas posses.



O Música com Café agradece a atenção dispensada pela Jessica para conseguirmos a realização desta entrevista com sucesso.

Links:
Blog Living with Intention - www.jessicaalcorso.com
Facebook - www.facebook.com/jessicaalcorso

As duas fotografias neste post foram gentilmente cedidas por Jessica Alcorso.
Tradução por Fátima Teixeira

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5 comments

  1. Olá Fátima, tudo bem? Gostei muito da entrevista, de aprender um pouco mais e conhecer a Jessica Alcorso e seu minimalismo. Obrigada

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    1. Olá Andreia! Está tudo bem sim, e ctg? Obrigada pelas palavras! Beijinho!

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  2. Gostei muito da entrevista, óptimas ideias e novas inspirações. Obg.

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    1. Obrigado! É enriquecedor conhecer mais culturas!

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  3. gostei muito da sua entrevista com a Jéssica, ela me fez pensar em muitos aspectos da vida que desperdiço coisas... obrigada por nos disponibilizar esse material
    big beijo :*
    fadetudoumpouco.blogspot.com.br

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